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domingo, 14 de novembro de 2010

FORRÓ É COISA SÉRIA

Quando eu comecei a ver e a entender as coisas na vida tinha um forró na frente da minha casa.
Na frente da minha casa tinha um lote baldio que era ocupado por três casinhas de taipa: a casa do "Seu" Juvenal, a do "Seu" Inácio e do "Seu" Zé-da-água". Zé-da-água era um homem baixinho e entroncado que tinha dois jumentinhos e vendia água-de-beber em pequenos tonéis de madeira chamadas "ancoretas", quatro em cada jumento. "Seu" Inácio era o marido da D. Doca - mulher enorme, maior que Seu Inácio, de olhos grandes e ferozes quando era preciso - era também pai do Toín e do Riba (Antônio e Ribamar, como já perceberam). E o "Seu" Juvenal era o homem do forró.

Ele, quando chegou de mudança, armou as trempes, ajeitou portas, jogou um reboco em cima da parede de taipa. Ficou um luxo! E armou um poste de madeira, devia ter uns cinco metros de altura, e encarapitou na ponta uma "radiadora". Na verdade, uma "irradiadora", um auto-falante de boca de funil, eram as caixas de som daqueles tempos.
Quando chegou o sábado começou o pagode. Boquinha da noite já estava tocando na radiadora o "Meu pé de serra", o "Coqueiro seco" instrumental de sanfona, músicas do Jackson do Pandeiro e outros. Coisa do outro mundo! Pedi a mãe par ir ver e, por uns instantes fui ver as maravilhas tecnológicas da época. Um toca-discos - uma caixa preta com botões, uma mesinha de lado com um paninho seco e uma caixa de agulhas, mais uma pilha enorme de discos-de-cera pretos, pesados e quebradiços que só. O Juvenal botava um disco atrás do outro. Cada disco era uma música só, de cada lado. De vez em quando a agulha gasta tinha de ser trocada. Era fascinante, ele puxava o braço curvo do toca-disco pra cima, afrouxava a borboleta de um parafuso-presilha, tirava a agulha já rombuda e botava uma novinha. Depois, era só encostar e o chiado do disco troava nos ares! Eita pau pereira! Muito legal.

Me lembro do terreiro bem varridinho antes e da poeira danada subindo depois, pelo pisado dos dançantes. As moças - eu era menino de dez anos talvez - chegavam de duas, de três delas de braço dado formando uma corrente. Tímidas, ficavam meio de lado sentadas em tamboretes de madeira enquanto aguardavam um rapaz que viesse tirá-las pra dançar. Depois... era ver o poeirão no mei' do mundo!

Me lembro que corria uma cachacinha escondida. Os homens iam lá atrás na casa e voltavam vermelhos e de olhos acesos. Cangibrina, aguardente, cana, o que fosse era pouco. Coisa de gente pobre que mal dava pra açular a alegria. Bom mesmo era a música troando no ar. Eu que até então só ouvira a radiadora do Afonso da Luiza agora tinha uma bem na frente de casa. A do Afonso tocava umas coisas gaiatas, uma música que a gente chamava de "Zé-da-onça" porque não sabia o título. Contava a história de uma mulher que o marido passa mal e ela, amedrontada, vai falar pro Zé-da-onça: - "Zé-da-onça eu vim pra te dizê... que meu marido tá passando má... eu tenho medo de ficá sozinha Zé-da-onça, e agora é que vai piorá... Nenhum de nós meninos ainda entendia aquela história de "oferecimento prévio" mas como os grandes riam, a gente ria tambem. Aquilo zoava pelo Terreno-da-Base levado e trazido pelo vento das tardes.

Mas, teve um dia que eu estava todo animado pra ir lá pro Juvenal e a mãe não deixou. - "Você num vai lá mais não. Aquilo é coisa de gente grande, você é criança e lugar de criança é em casa. Inda mais agora que, quando a gente dá fé, lá fica cheínho de rapariga. Ora! Cê pensa que eu não vi a Lurdes do João-da-moita passando por lá com aquela saia dois palmos acima do joelho?

Acabou-se minha visitação às fontes do forró por uns tempos, até chegar minha autonomia e eu ir, com meus próprios pés atrás da Lurde do João-Moita ou das meninas do Cabaré da D. Mimosa. Mas, ao mesmo tempo, ficou a liçao preciosa da minha mãe, a D. Maria Meneses (Que Deus a tenha): - Forró não é lugar de rapariga! Mas num é mesmo!

Por isso quando eu vejo agora nos CDs de "chous" ao vivo esses conjuntinhos fidumaséguas de forró eletrônico chamando "Cadê as raparigas?" e elas respondendo, eu sei que ali não é forró e que aquelas pobres meninas... Ah, num são quengas não! Elas devem de estar é enganada demais com a vida...

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