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terça-feira, 16 de novembro de 2010

De Menino

POESIA:

De Menino


No meu tempo de menino

eu tive um cavalín’ de pau.

Eu fui um cabra da peste

nas sendas do meu oeste

das plagas do meu quintal.

Meu cavalo não passava

D’um talo de carnaúba,

Era a beleza castanha

U´a mansidão tamanha

leve feito a timbaúba.


Os olhos eu tinha feito

Com dois caroços de ata

Tinha rédea, adereço

Meu corcel não tinha preço

Que me pagasse a bravata

Os olhos no mei´ da cara

Crina feita em tucum

Meu chapéu com barbicacho

Uma tampinha por baixo

Feito uma argola, um debrum


Meu oeste misturava

"Winchester" com gibão

Que o Mocinho tinha nas costas.

Eita, tendéu de lorotas!

Quintal de sonho e emoção!

No seu dorso, com a corda

fui ladino e fui ligeiro.

Mas, também fui andarilho

de modinha, de estribilho

O mais famado seresteiro.


Quis, por causa da escola,

até, ser Pedro Primeiro

Proclamei independências

Com meu “tiquín” de ciência

no rego do banheiro

Uma espada de taquara

E um chapéu de jornal.

Um senso do que é direito,

uma vontade no peito

Perseguindo um ideal


Fui e sou menino alegre

O mais alegre que existe,

E convivendo a montá-lo

eu notei que meu cavalo

não era assim. Era triste.

Nos seus óio de caroço

Parecia chorá’ mágoa.

Talvez o olhá’ de caroço

O desgostasse, seu moço,

e virasse gota d’água.


Ou será que era outra coisa

que alterava a noção

que eu dava a sua verdade?

Era pouca a liberdade

dos arreios de cordão?

Mas era sua própria morte

doída separação

que meu corcel tinha visto.

No meu cavalín’ benquisto

foi uma premonição


Previu o que o matou

amarrado com o cordão,

quando o esqueci na mangueira

naquela tarde fagueira

que encerrou o verão.

Choveu chuva! Tanta chuva...

eu leso, preso a doença

não cuidei do meu corcel

largado na chuva, ao léu..

Esqueci sua presença.


Choveu chuva, tanta chuva,

eu nunca tinha visto tanta,

que mãe me prendeu em casa

Eutava com corpo em brasa

e pegado na garganta.

Chuva forte no nordeste

é festa pr’os cajuêro

O baticum no telhado

deixa a gente acalentado

chega o sono vem ligeiro...


Mas, por munto que ela seja

chega uma hora que passa.

O quintal tem novo chêro

Mas, deitado no terrero

Eu enxerguei a desgraça.

O meu pobre cavalín’

perdera toda sua fama...

Meu parceiro de folguedo

nem era mais brinquedo

caído no mei’ da lama


O talo de carnaúba

com aquela curva elegante

não era mais coisa forte...

Como animar meu consorte

prostrado ali adiante?

Não tinha como brincar...

nem havéra(*) o que conforte!

Com meu cavalo de pau

debutei no que era mau

amontado em sua morte.

(Outubro de 1969)

.....–—.....

Nota:

*havéra – uso que, em parte do nordeste, se faz do verbo haver no sentido de “haveria”; o matuto às vezes diz: “Nunca foi nem havéra de ser.”

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