POESIA:
De Menino
No meu tempo de menino
eu tive um cavalín’ de pau.
Eu fui um cabra da peste
nas sendas do meu oeste
das plagas do meu quintal.
Meu cavalo não passava
D’um talo de carnaúba,
Era a beleza castanha
U´a mansidão tamanha
leve feito a timbaúba.
Os olhos eu tinha feito
Com dois caroços de ata
Tinha rédea, adereço
Meu corcel não tinha preço
Que me pagasse a bravata
Os olhos no mei´ da cara
Crina feita em tucum
Meu chapéu com barbicacho
Uma tampinha por baixo
Feito uma argola, um debrum
Meu oeste misturava
"Winchester" com gibão
Que o Mocinho tinha nas costas.
Eita, tendéu de lorotas!
Quintal de sonho e emoção!
No seu dorso, com a corda
fui ladino e fui ligeiro.
Mas, também fui andarilho
de modinha, de estribilho
O mais famado seresteiro.
Quis, por causa da escola,
até, ser Pedro Primeiro
Proclamei independências
Com meu “tiquín” de ciência
lá no rego do banheiro
Uma espada de taquara
E um chapéu de jornal.
Um senso do que é direito,
uma vontade no peito
Perseguindo um ideal
Fui e sou menino alegre
O mais alegre que existe,
E convivendo a montá-lo
eu notei que meu cavalo
não era assim. Era triste.
Nos seus óio de caroço
Parecia chorá’ mágoa.
Talvez o olhá’ de caroço
O desgostasse, seu moço,
e virasse gota d’água.
Ou será que era outra coisa
que alterava a noção
que eu dava a sua verdade?
Era pouca a liberdade
dos arreios de cordão?
Mas era sua própria morte
doída separação
que meu corcel tinha visto.
No meu cavalín’ benquisto
foi uma premonição
Previu o que o matou
amarrado com o cordão,
quando o esqueci na mangueira
naquela tarde fagueira
que encerrou o verão.
Choveu chuva! Tanta chuva...
eu leso, preso a doença
não cuidei do meu corcel
largado na chuva, ao léu..
Esqueci sua presença.
Choveu chuva, tanta chuva,
eu nunca tinha visto tanta,
que mãe me prendeu em casa
Eu ‘tava com corpo em brasa
e pegado na garganta.
Chuva forte no nordeste
é festa pr’os cajuêro
O baticum no telhado
deixa a gente acalentado
chega o sono vem ligeiro...
Mas, por munto que ela seja
chega uma hora que passa.
O quintal tem novo chêro
Mas, deitado no terrero
Eu enxerguei a desgraça.
O meu pobre cavalín’
perdera toda sua fama...
Meu parceiro de folguedo
já nem era mais brinquedo
caído no mei’ da lama
O talo de carnaúba
com aquela curva elegante
não era mais coisa forte...
Como animar meu consorte
prostrado ali adiante?
Não tinha como brincar...
nem havéra(*) o que conforte!
Com meu cavalo de pau
debutei no que era mau
amontado em sua morte.
(Outubro de 1969)
.....–—.....
Nota:
*havéra – uso que, em parte do nordeste, se faz do verbo haver no sentido de “haveria”; o matuto às vezes diz: “Nunca foi nem havéra de ser.”
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