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domingo, 12 de dezembro de 2010

"Et tuorum orum"


O latim entrou no nosso juízo por causa das missas. A gente pode até não entender nadica de nada de latim, mas sempre se alerta quando ouve um “Dominus vobiscum” bem pronunciado. E latim traz aquela coisa de “sagrado”, aquele negócio sério que faz todo cidadão com mais de cinquentinha tirar o chapéu e se benzer. O cabra pode até não tirar o chapéu, mas que ele vai pensar em tirar, vai sim.

Eu me lembro quando lá pelos dezoito anos comecei a me comportar como um iconoclasta convicto. Sabe, aquele negócio de atacar as crenças consagradas ou instituições veneradas, como a igreja, ou qualquer tradição. Já tocava um violão razoável – eu era bem convencido mesmo. Eu era tão convencido que precisou eu ver a “bossa-nova”, o João Gilberto tocando, ou a galera de Minas no Clube da Esquina – que o Franzé me mostrou – para botar os pés no chão e me sentir medíocre. Fiquei bem franciscano uns tempos aí. Porém, umas revistinhas de música “Vigu – violão e guitarra” mais uns recortes espertos da coluna do Oldemário Touguinhó no JB que o Edvar me arranjou, me salvaram do inferno da pequenez.

Cara, era cada coisa a mais esperta.

As revistinhas traziam o arranjo cifrado de muitas músicas e os recortes do JB eram da MPB mais pura! Foi um farra. Me esbaldei. Toquei “Desafinado” do João Gilberto, “Eu e a brisa” do Johnny Alf, “Apelo” e “Eu sei que vou te amar” do Vinicio de Moral (Eu chamo ele assim porque esse cara é singular demais para falarmos o nome em plural).

Pense! Voltei a me orgulhar num instante... O orgulho, minha gente, é que nem ferida braba, basta comer ova de curimatã que a chaga supura e volta de novo! Só o Cordeiro de Deus para ter piedade de nós mesmo. Ou melhor, só um “Agnus Dei qui tollis peccata mundi" para ter "miserere nobis”!

Pois bem, uma destas iconoclastias se dava na hora de se tomar uma boa pinga. Uma Ypioca, uma Chave de Ouro, uma Douradinha... Cachaça no Ceará, é de lei. É coisa boa. Tem umas que são pura fuleiragem, mas é a exceção. A regra é a cachaça ser boa mesmo. Nestas horas, como acontecia às sextas-feiras no Bar do Orlando, bem na quina do muro do Mênphis Clube, antes da gente começar a tocar a roda de chorinho, samba, samba-canção ou seresta, a gente apelava:

– “Et tuorum orum!” Falava Jackson erguendo o copo.

– “Et Cafarnaum!” Dizia Nilo, fazendo “tim-tim” com o copo.

– “Et Tamancus ejum!” Respondiam todos caindo na gargalhada.

E se ia a talagada de pinga, servida pelo Orlando, goela abaixo depois desta estranha e estapafúrdia jaculatória que era anunciada, com unção, pelo Jackson, com o copo erguido à altura dos olhos.

Era como se ele, ali, contemplasse o infinito através da indiscutível transparência do copinho Ref. 004578 da famosa Fábrica de Copos e Derivados de Vidro Nadir Figueiredo, que pontua com seus produtos os balcões de bares, bodegas, bistrôs, cafôfos e sabe quantos outros ambientes de norte a sul e de leste a oeste do Brasil amado, bendito e idolatrado. Salve, salve! Amém da Pátria! Como diria o saudoso Coroné Ludugero ao não menos saudoso Otropi.

Era sempre assim.

A gente se encontrava para a boa música. Era Valdeci no cavaco, Mestre Ontara no violão de seis, euzinho aqui no sete-cordas, Orlando e Nilo na percussão. A música era ponteada com uma boa pinga e compadre Jackson mandava sempre essa de um latim mais pro Genésio Sacristão do que pro Padre João Pessoa de Carvalho, vigário da Paróquia de Jesus, Maria e José no bairro Antônio Bezerra, na Fortaleza do meu Cearázinhodeaçúcar...

Jesus que nos desculpasse porque, o Pe. João... Nem a pau!

Em todo caso, depois da pinga a gente dizia: - “Seculórus amém!”

.x.x.x.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Tem dias que o dia vale a pena

Realmente, parece fim-de-ano.

Coloquei para algumas de minhas turmas na escola a questão "O que se acaba mesmo?", com a firme convicção de que nada se acaba. Falei para eles que esta onda de "final de ano" é puramente comercial e que não vale a pena deixar-se levar por ela. Onda é coisa para a gente "cavalgar" de cima da prancha, no meio dela... é suicídio! Ela vai jogar a gente de peito no chão da praia e vai ralar tudo!

Mas, comecei a observar a galera...

Passava e cumprimentava um e outro "Aí, meu!" "Oi, galerinha!" "Salve!" como é meu costume fazer naquelas galerias do Marcelo Cândia, andando do "Cabeção" ao "Cabecinha"! E posso garantir a vocês, leitores, que nunca vi tanta gente com o ar tão bacana,tão bonito!

Cara,
se for preciso acreditar em "fim-de-ano" para ficar assim, podem ficar à vontade!

Que coisa mais bonita aquela mulherada e aquela rapaziada... as primeiras muito mais bonitas, é claro!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

De Menino

POESIA:

De Menino


No meu tempo de menino

eu tive um cavalín’ de pau.

Eu fui um cabra da peste

nas sendas do meu oeste

das plagas do meu quintal.

Meu cavalo não passava

D’um talo de carnaúba,

Era a beleza castanha

U´a mansidão tamanha

leve feito a timbaúba.


Os olhos eu tinha feito

Com dois caroços de ata

Tinha rédea, adereço

Meu corcel não tinha preço

Que me pagasse a bravata

Os olhos no mei´ da cara

Crina feita em tucum

Meu chapéu com barbicacho

Uma tampinha por baixo

Feito uma argola, um debrum


Meu oeste misturava

"Winchester" com gibão

Que o Mocinho tinha nas costas.

Eita, tendéu de lorotas!

Quintal de sonho e emoção!

No seu dorso, com a corda

fui ladino e fui ligeiro.

Mas, também fui andarilho

de modinha, de estribilho

O mais famado seresteiro.


Quis, por causa da escola,

até, ser Pedro Primeiro

Proclamei independências

Com meu “tiquín” de ciência

no rego do banheiro

Uma espada de taquara

E um chapéu de jornal.

Um senso do que é direito,

uma vontade no peito

Perseguindo um ideal


Fui e sou menino alegre

O mais alegre que existe,

E convivendo a montá-lo

eu notei que meu cavalo

não era assim. Era triste.

Nos seus óio de caroço

Parecia chorá’ mágoa.

Talvez o olhá’ de caroço

O desgostasse, seu moço,

e virasse gota d’água.


Ou será que era outra coisa

que alterava a noção

que eu dava a sua verdade?

Era pouca a liberdade

dos arreios de cordão?

Mas era sua própria morte

doída separação

que meu corcel tinha visto.

No meu cavalín’ benquisto

foi uma premonição


Previu o que o matou

amarrado com o cordão,

quando o esqueci na mangueira

naquela tarde fagueira

que encerrou o verão.

Choveu chuva! Tanta chuva...

eu leso, preso a doença

não cuidei do meu corcel

largado na chuva, ao léu..

Esqueci sua presença.


Choveu chuva, tanta chuva,

eu nunca tinha visto tanta,

que mãe me prendeu em casa

Eutava com corpo em brasa

e pegado na garganta.

Chuva forte no nordeste

é festa pr’os cajuêro

O baticum no telhado

deixa a gente acalentado

chega o sono vem ligeiro...


Mas, por munto que ela seja

chega uma hora que passa.

O quintal tem novo chêro

Mas, deitado no terrero

Eu enxerguei a desgraça.

O meu pobre cavalín’

perdera toda sua fama...

Meu parceiro de folguedo

nem era mais brinquedo

caído no mei’ da lama


O talo de carnaúba

com aquela curva elegante

não era mais coisa forte...

Como animar meu consorte

prostrado ali adiante?

Não tinha como brincar...

nem havéra(*) o que conforte!

Com meu cavalo de pau

debutei no que era mau

amontado em sua morte.

(Outubro de 1969)

.....–—.....

Nota:

*havéra – uso que, em parte do nordeste, se faz do verbo haver no sentido de “haveria”; o matuto às vezes diz: “Nunca foi nem havéra de ser.”

domingo, 14 de novembro de 2010

Manuel Bandeira comenta Otacílio Batista

Depois de ouvir Otacílio Batista cantar durante um festival de violeiros realizado no Rio de Janeiro, o poeta Manuel Bandeira os seguintes versos:


Anteontem, minha gente,

Fui juiz numa função

De violeiros do Nordeste

Cantando em competição,

Vi cantar Dimas Batista,

Otacílio, seu irmão,

Ouvi um tal de Ferreira,

Ouvi um tal de João.

Um a quem faltava um braço

Tocava cuma mão;

Mas como ele mesmo disse,

Cantando com perfeição,

Para cantar afinado,

Para cantar com paixão,

A força não está no braço,

Ela está no coração.

Ou puxando uma sextilha,

Ou uma oitava em quadrão,

Quer a rima fosse em inha

Quer a rima fosse em ao,

Caíam rimas do céu,

Saltavam rimas do chão!

Tudo muito bem medido

No galope do Sertão.

A Eneida estava boba,

O Cavalcanti bobão,

O Lúcio, o Renato Almeida,

Enfim toda comissão.

Saí dali convencido

Que não sou poeta não;

Que poeta é quem inventa

Em boa improvisação

Como faz Dimas Batista

E Otacílio seu irmão;

Como faz qualquer violeiro,

Bom cantador do Sertão,

A todos os quais humilde

Mando minha saudação.”