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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Advertência a Pedro Bial

B.B.B.

Cordelista natural de Santa Bárbara-BA,
(residente em Salvador)

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro’
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.



Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.


Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

FIM

domingo, 12 de dezembro de 2010

"Et tuorum orum"


O latim entrou no nosso juízo por causa das missas. A gente pode até não entender nadica de nada de latim, mas sempre se alerta quando ouve um “Dominus vobiscum” bem pronunciado. E latim traz aquela coisa de “sagrado”, aquele negócio sério que faz todo cidadão com mais de cinquentinha tirar o chapéu e se benzer. O cabra pode até não tirar o chapéu, mas que ele vai pensar em tirar, vai sim.

Eu me lembro quando lá pelos dezoito anos comecei a me comportar como um iconoclasta convicto. Sabe, aquele negócio de atacar as crenças consagradas ou instituições veneradas, como a igreja, ou qualquer tradição. Já tocava um violão razoável – eu era bem convencido mesmo. Eu era tão convencido que precisou eu ver a “bossa-nova”, o João Gilberto tocando, ou a galera de Minas no Clube da Esquina – que o Franzé me mostrou – para botar os pés no chão e me sentir medíocre. Fiquei bem franciscano uns tempos aí. Porém, umas revistinhas de música “Vigu – violão e guitarra” mais uns recortes espertos da coluna do Oldemário Touguinhó no JB que o Edvar me arranjou, me salvaram do inferno da pequenez.

Cara, era cada coisa a mais esperta.

As revistinhas traziam o arranjo cifrado de muitas músicas e os recortes do JB eram da MPB mais pura! Foi um farra. Me esbaldei. Toquei “Desafinado” do João Gilberto, “Eu e a brisa” do Johnny Alf, “Apelo” e “Eu sei que vou te amar” do Vinicio de Moral (Eu chamo ele assim porque esse cara é singular demais para falarmos o nome em plural).

Pense! Voltei a me orgulhar num instante... O orgulho, minha gente, é que nem ferida braba, basta comer ova de curimatã que a chaga supura e volta de novo! Só o Cordeiro de Deus para ter piedade de nós mesmo. Ou melhor, só um “Agnus Dei qui tollis peccata mundi" para ter "miserere nobis”!

Pois bem, uma destas iconoclastias se dava na hora de se tomar uma boa pinga. Uma Ypioca, uma Chave de Ouro, uma Douradinha... Cachaça no Ceará, é de lei. É coisa boa. Tem umas que são pura fuleiragem, mas é a exceção. A regra é a cachaça ser boa mesmo. Nestas horas, como acontecia às sextas-feiras no Bar do Orlando, bem na quina do muro do Mênphis Clube, antes da gente começar a tocar a roda de chorinho, samba, samba-canção ou seresta, a gente apelava:

– “Et tuorum orum!” Falava Jackson erguendo o copo.

– “Et Cafarnaum!” Dizia Nilo, fazendo “tim-tim” com o copo.

– “Et Tamancus ejum!” Respondiam todos caindo na gargalhada.

E se ia a talagada de pinga, servida pelo Orlando, goela abaixo depois desta estranha e estapafúrdia jaculatória que era anunciada, com unção, pelo Jackson, com o copo erguido à altura dos olhos.

Era como se ele, ali, contemplasse o infinito através da indiscutível transparência do copinho Ref. 004578 da famosa Fábrica de Copos e Derivados de Vidro Nadir Figueiredo, que pontua com seus produtos os balcões de bares, bodegas, bistrôs, cafôfos e sabe quantos outros ambientes de norte a sul e de leste a oeste do Brasil amado, bendito e idolatrado. Salve, salve! Amém da Pátria! Como diria o saudoso Coroné Ludugero ao não menos saudoso Otropi.

Era sempre assim.

A gente se encontrava para a boa música. Era Valdeci no cavaco, Mestre Ontara no violão de seis, euzinho aqui no sete-cordas, Orlando e Nilo na percussão. A música era ponteada com uma boa pinga e compadre Jackson mandava sempre essa de um latim mais pro Genésio Sacristão do que pro Padre João Pessoa de Carvalho, vigário da Paróquia de Jesus, Maria e José no bairro Antônio Bezerra, na Fortaleza do meu Cearázinhodeaçúcar...

Jesus que nos desculpasse porque, o Pe. João... Nem a pau!

Em todo caso, depois da pinga a gente dizia: - “Seculórus amém!”

.x.x.x.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Tem dias que o dia vale a pena

Realmente, parece fim-de-ano.

Coloquei para algumas de minhas turmas na escola a questão "O que se acaba mesmo?", com a firme convicção de que nada se acaba. Falei para eles que esta onda de "final de ano" é puramente comercial e que não vale a pena deixar-se levar por ela. Onda é coisa para a gente "cavalgar" de cima da prancha, no meio dela... é suicídio! Ela vai jogar a gente de peito no chão da praia e vai ralar tudo!

Mas, comecei a observar a galera...

Passava e cumprimentava um e outro "Aí, meu!" "Oi, galerinha!" "Salve!" como é meu costume fazer naquelas galerias do Marcelo Cândia, andando do "Cabeção" ao "Cabecinha"! E posso garantir a vocês, leitores, que nunca vi tanta gente com o ar tão bacana,tão bonito!

Cara,
se for preciso acreditar em "fim-de-ano" para ficar assim, podem ficar à vontade!

Que coisa mais bonita aquela mulherada e aquela rapaziada... as primeiras muito mais bonitas, é claro!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

De Menino

POESIA:

De Menino


No meu tempo de menino

eu tive um cavalín’ de pau.

Eu fui um cabra da peste

nas sendas do meu oeste

das plagas do meu quintal.

Meu cavalo não passava

D’um talo de carnaúba,

Era a beleza castanha

U´a mansidão tamanha

leve feito a timbaúba.


Os olhos eu tinha feito

Com dois caroços de ata

Tinha rédea, adereço

Meu corcel não tinha preço

Que me pagasse a bravata

Os olhos no mei´ da cara

Crina feita em tucum

Meu chapéu com barbicacho

Uma tampinha por baixo

Feito uma argola, um debrum


Meu oeste misturava

"Winchester" com gibão

Que o Mocinho tinha nas costas.

Eita, tendéu de lorotas!

Quintal de sonho e emoção!

No seu dorso, com a corda

fui ladino e fui ligeiro.

Mas, também fui andarilho

de modinha, de estribilho

O mais famado seresteiro.


Quis, por causa da escola,

até, ser Pedro Primeiro

Proclamei independências

Com meu “tiquín” de ciência

no rego do banheiro

Uma espada de taquara

E um chapéu de jornal.

Um senso do que é direito,

uma vontade no peito

Perseguindo um ideal


Fui e sou menino alegre

O mais alegre que existe,

E convivendo a montá-lo

eu notei que meu cavalo

não era assim. Era triste.

Nos seus óio de caroço

Parecia chorá’ mágoa.

Talvez o olhá’ de caroço

O desgostasse, seu moço,

e virasse gota d’água.


Ou será que era outra coisa

que alterava a noção

que eu dava a sua verdade?

Era pouca a liberdade

dos arreios de cordão?

Mas era sua própria morte

doída separação

que meu corcel tinha visto.

No meu cavalín’ benquisto

foi uma premonição


Previu o que o matou

amarrado com o cordão,

quando o esqueci na mangueira

naquela tarde fagueira

que encerrou o verão.

Choveu chuva! Tanta chuva...

eu leso, preso a doença

não cuidei do meu corcel

largado na chuva, ao léu..

Esqueci sua presença.


Choveu chuva, tanta chuva,

eu nunca tinha visto tanta,

que mãe me prendeu em casa

Eutava com corpo em brasa

e pegado na garganta.

Chuva forte no nordeste

é festa pr’os cajuêro

O baticum no telhado

deixa a gente acalentado

chega o sono vem ligeiro...


Mas, por munto que ela seja

chega uma hora que passa.

O quintal tem novo chêro

Mas, deitado no terrero

Eu enxerguei a desgraça.

O meu pobre cavalín’

perdera toda sua fama...

Meu parceiro de folguedo

nem era mais brinquedo

caído no mei’ da lama


O talo de carnaúba

com aquela curva elegante

não era mais coisa forte...

Como animar meu consorte

prostrado ali adiante?

Não tinha como brincar...

nem havéra(*) o que conforte!

Com meu cavalo de pau

debutei no que era mau

amontado em sua morte.

(Outubro de 1969)

.....–—.....

Nota:

*havéra – uso que, em parte do nordeste, se faz do verbo haver no sentido de “haveria”; o matuto às vezes diz: “Nunca foi nem havéra de ser.”